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O busílis de busílis

“Eis o busílis.”

“Aí está o busílis.”

“Aí é onde está o busílis.”

“Aqui é que está o busílis.”

 

Embora a palavra busílis figure em dicionários como “cerne da questão ou do problema”, “o xis do problema”, “o xis da questão”, ela não nasceu como vocábulo latino genuíno, mas de leitura errônea de uma frase em latim. Sim: sua etimologia é pura piada.

 

Existem pelo menos duas tradições principais sobre a origem do termo. A mais antiga e mais bem documentada é a registrada pelo historiador galês Giraldus Cambrensis (1146-1223). Ele conta que um aluno perguntou ao teólogo John of Cornwall: “Quem é Busillis?”, achando que fosse o nome de um rei. 

 

Quando Cornwall lhe perguntou onde estava isso, o noviço buscou um livro litúrgico e mostrou o fim de uma coluna e o início da seguinte: de um lado, in die; do outro, bus illis. Lidas em sequência, as duas partes formavam in diebus illis (“naqueles dias”). 

 

O engano nasceu duma palavra partida entre duas colunas, de modo que a mudança de coluna ocultava sua continuidade. No dia seguinte, segundo Giraldus, John of Cornwall levou a questão para a sala de aula, provocando riso geral, e usou o episódio como exemplo de “baixo latim” do clero.

 

 

Há também versões tardias – de frágil sustentação, mas reproduzidas por certos dicionários etimológicos – nas quais o protagonista aparece como copista, tradutor ou velho clérigo ignorante. Em algumas delas, o engano já não decorre da divisão entre duas colunas, mas da segmentação errada de uma sequência latina escrita ou ouvida sem limites vocabulares claros. 

 

Numa versão ainda mais folclórica da anedota, a frase aparece segmentada fantasiosamente como Indie busillis magnis plenae: “As Índias estão cheias de grandes busílis”. Nesse contexto, busillis, inexistente em latim, ficou parecendo forma legítima de um hipotético substantivo busillus

 

Se non è vero, è ben trovato: historicamente frágil, a variante das Índias era engenhosa o bastante para sobreviver em dicionários e repertórios de curiosidades etimológicas.

 

Nascida duma anedota medieval, a falsa palavra latina acabou incorporada ao italiano, ao espanhol e ao português. Em nossa língua, aos poucos, foi deixando de soar cômica e passou a ser empregada em contextos sérios, adquirindo verniz de erudição. O fato é que dicionários brasileiros antigos, como o de Simões da Fonseca (1915), ainda a classificavam como burlesca; em outros, foi registrada também como chula. Quem diria: um erro de leitura acabou, séculos depois, na boca de filósofos, juristas e eruditos de toda espécie que hoje a empregam como se fosse um diamante vocabular.

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