Suposto viajante do tempo afirma que português do século XXII é “irreconhecível”
- Ivanildo Debochara

- 12 de jul.
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RIO DE JANEIRO (Reuters) – Em entrevista à GloboNews, um suposto viajante do tempo afirmou ter visitado o século XXII e se deparado com um futuro errante para a língua portuguesa. Sem provas convincentes, ele se identifica como Gladstone Chaves de Melo – erudito do século XX que publicou uma gramática hoje esquecida – e diz ter visto uma era dominada por “ortografia radicalmente fonética, pronúncias cacoépicas, substituição do subjuntivo pelo indicativo, conjugação completa de verbos defectivos, particípios degenerados e palavras de gênero fluido”.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀Segundo o autoproclamado explorador temporal, todo esse “pesadelo” teria início em nosso presente, “com a bênção dos mesmos linguistas que hoje demonizam gramáticos e defendem critérios de correção que ignoram solenemente o lídimo corpus da alta literatura”.
“Sob a alegação de atualizar nossa gramática, linguistas-gramáticos levarão adiante a canonização da escrita de várias gerações de analfas diplomados e, com o passar do tempo, consagrarão uma norma inculta, codificada com o mais nefando relativismo. Como se não bastasse, a ABL continuará elegendo imortais indoutos, que atualizarão o Volp com variantes consagradas em fanfics do Wattpad”, afirmou, preocupado, o viajante. “Na 16ª edição do Vocabulário, em 2118, teremos ‘conjo’, ‘conja’, ‘todes’ e ‘menines’“.
No século XXII descrito por Melo, “o ensino do vernáculo será conspurcado por discípulos de Faraco e Vieira, autores que tiveram a protérvia de propor como referência usos de textos jornalísticos e científicos no lugar dos mais escorreitos usos dos nossos clássicos”.

O suposto viajante alerta que “o critério vale-tudista desses ignaros ressentidos será usado, por exemplo, na normatização de particípios espúrios, como em ‘tinha trago’, ‘tinha chego’, ‘tinha compro’“. E, como prova, exibe páginas da Gramática da Língua Brasileira, encontrada em livrarias do ano de 2118.
A comunidade acadêmica se manifestou sobre o assunto. “Supondo que ele esteja dizendo a verdade, devemos lembrar que, séculos atrás, quando surgiram na língua, particípios irregulares como ‘ganho’, ‘gasto’ e ‘pego’ foram tratados como aberrações, tal como se dá com os particípios populares de hoje: ‘trago’, ‘chego’, ‘compro’. Apesar disso, no fim das contas, se consagraram pelo uso e foram declarados corretos não pelos linguistas, mas pelos próprios gramáticos tradicionais. Esse fato prova a total inutilidade de resistir a variações e mudanças”, disse Noé Cho, professor do Departamento de Língua Brasileira da Universidade de Brasília (UnB).
“Ninguém muda a língua por decreto. ‘Conjo’ e ‘conja’ são próprios do idioleto de Sérgio Moro. Já ‘todes’ e ‘menine’ só entrariam no Volp se o marcador de gênero neutro fosse amplamente adotado pelos falantes, porque o uso sempre precede a norma. Tudo isso é um espantalho retórico criado pelos delírios de um nostálgico da tradição, inconformado com a realidade dos falantes de carne e osso. Por que é que, em vez de temer o inevitável futuro da língua, ele não viaja ao passado glorioso dela e corrige lá a ‘frauta’ e os ‘meios mortos’ de Camões? Aproveita e pergunta a ele qual era a do Velho do Restelo, que o povo aqui não entendeu até hoje”, disse Xandra Xavier, professora visitante da Universidade de Miskatonic (EUA).



Alguém tem disponível o arquivo digital do Acordo Ortográfico de 2118? Grata.