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A língua como ela é...


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A Portuguesa (Nelson Rodrigues) 

 

A portuguesa vivia na boca do povo. Bonitinha, mas ordinária. Saía se conjugando com todas as pessoas que encontrava, nos mais defectivos verbos. Ainda assim, era o grande amor da vida de Olavo. Embora se sentisse tentado por sua espontaneidade, ele resistia às suas abordagens informais qual um cavalheiro polido, educado que foi para idealizá-la como flor. Queria com ela uma prosa correta, como reza a tradição; mas os modos dela faziam-no sentir um misto de atração e repulsa.

 

Certa noite, enquanto bebia sozinho num bar, tentando esquecer barbarismos e plebeísmos que insistiam em ecoar por sua fala após um dia inteiro na rua, eis que a ordinária, de súbito, surge e senta em sua mesa sem nenhuma formalidade. “Isso são modos?”, estranhou Olavo. “Você deveria sentar-se à mesa, e não nela”. A portuguesa, que há tempos já não se comportava mais como língua de família, de linhagem indo-europeia, fez que não era com ela. Ostentava, sem vergonha e sem vírgulas, suas intimidades e ambiguidades, dando margem a más interpretações. Saiu de cima da mesa e sentou no colo de Olavo, sussurrando-lhe silabadas e cacofonias insuportáveis, mais do que seus ouvidos já feridos podiam aguentar. Reparou constrangido nas formas da rapariga, reclamando das redundâncias que lhe pesavam e das concordâncias e regências impróprias com que estava vestida, ao que ela lhe respondeu com “Meu corpo, minhas regras”.

 

E ali estava Olavo, homem erudito, zeloso das tradições, cultor de arcaísmos, mesóclises e apossínclises, irresistivelmente entregue aos desvios daquela língua indecente e decadente, cedendo à permissividade de um estilo infame, devasso, achado na rua, que foi tomando o lugar de toda a parnasiana sintaxe que ele levara anos para dominar com maestria. Continuou tentando conduzir o colóquio, mas parecia inútil gastar latim com quem já havia esquecido as etimologias de sua falecida mãe, ignorando solenemente suas próprias origens. Ao ouvir o apelo à tradição materna, ela reagiu com escárnio: “Sabe de nada, inocente! Tu acha mermo que a minha mãe tinha classe? A senhora Latim era mó vulgar! Vivia na boca dum monte de soldado romano...” “Mais respeito com sua mãe!”, repreendeu ele. “Não se usa artigo definido antes de possessivo que preceda um nome como o dela, de parentesco”, corrigiu, como se ela se importasse com formalismos.

 

Ainda na vã tentativa de domá-la e mantê-la sob rédeas curtas, tal como procedia todo falante de bem com toda língua que fantasiasse como pura e castiça, o pobre-diabo tentou persuadi-la: “Ó Portuguesa, minha inculta e bela, sai dessa vida desregrada, que te darei forma, estilo, virtude, expressão, etimologia, pátria, educação...”. Ela então se levantou às gargalhadas: “Hoje não, meu bem. Hoje eu só tô a fim de curtir uns pecado mermo, sabe? Meu destino é pecar”. Entediada com toda aquela afetação, decidiu encerrar a conversa: “Pra mim, já deu. Ó, tô vazando. E num vem atrás de mim, não, que lhe arrebento!”, usando o ‘lhe’ com tanta propriedade que nem o mais napoleônico defensor da tradição teria coragem de contrariá-la.”Ah, e outra: quem me chamava de ‘Portuguesa’ era a minha mãe, que vivia me confundindo com minha irmã que mora na Europa. O meu nome mermo é Brasileira!”

 

Ela lhe deu as costas e atravessou a rua sem olhar para os lados. Em poucos segundos, lá estava ela de novo, andando na boca do povo, entregue aos desregramentos de seus mais ignaros falantes.

 

Desiludido, Olavo sentou-se à sarjeta, onde já se encontrava o velho Lima, que, meio ébrio, mas ainda assim bastante lúcido, lhe deu um tapinha nas costas e disse: “Ô, Olavinho, tu num aprende mermo, né? Ela nunca vai ser de ninguém, meu príncipe. Essa aí nasceu pra viver livre, solta e desimpedida. Nunca quis nada sério e muito menos estável. E jamais vai ser submissa. Deixa ela ser o que ela quiser. Faz que nem eu: não se apega. Chama pra sair, mas como quem não quer nada, sem forçar essas formalidades. Deixa ela à vontade, deixa ela conduzir a conversa, descobre o que ela gosta de fazer, essas coisas. Uma hora vocês se acertam”.

 

“Tô ligado”, respondeu Olavo, resignado.

 

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