Figuras da linguagem (VII): Emílio de Menezes, rei dos trocadilhos
- Ivanildo Debochara

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O parnasiano Emílio de Menezes (1866-1918) escrevia em língua culta, mas se consagrou graças à língua afiada.
À medida que suas piadas e tiradas foram se tornando cada vez mais lendárias, seus poemas de rigorosa técnica parnasiana acabaram ficando cada vez mais ignorados. Diante do imenso anedotário que sua vida se tornou, ficou difícil separar o que era realidade do que era ficção.
Certa vez um amigo provocou Emílio: “Não vou à exposição de cereais; basta-me você: é milho.” Emílio devolveu na hora: “Você hoje está com a veia” [aveia]. Quando o sujeito tentou ir embora, veio outra: “Não se evada” [cevada]. Emílio então o fez sentar-se novamente: “Sentei-o!” [centeio]. E, para encerrar a sessão de agricultura verbal: “A ti não intrigo, somente humilho” [trigo / milho].
Conta Ruy Castro que, após breve encontro na rua com um apóstolo da Igreja Positivista, este se despediu: “Até logo, Emilio. Eu vou para o Apostolado. E você?” “Eu... vou para o lado oposto”.
Emílio perdia o amigo, mas nunca a piada – e muito menos o trocadilho. Bastos Tigre, seu companheiro de boemia, chegou a escrever em verso:
Livrai-nos, santo Deus, dos inimigos nossos
E da língua fatal do Emílio de Meneses.
E isso não era exagero: ninguém estava a salvo de Emílio. Diante dele, uma notícia de jornal virava um poema engenhoso e sacana... contra alguém. Tuberculoso, o poeta Guimarães Passos, publicou seu Tratado de Versificação Portuguesa e pretendia usar a renda do livro para viajar à Europa e se tratar. Emílio não perdeu a oportunidade: “Coitado do Guima! Desde que o conheço, tem tratado de ver se fica são!”

Nem Ruy Barbosa escapou dele. O pedante-mor da língua portuguesa gabava-se de “estar em grande forma” para disputar a Presidência. Emílio logo reagiu e lhe sapecou uma quadrinha:
Ao ouvir-lhe a gabolice
Maria Augusta se abraza:
— Se tem tanto quanto disse,
Porque não o exhibe em casa?
Numa viagem de bonde, o poeta teria dividido o banco com homem tão obeso quanto ele. O assento quebrou. Emílio não perdeu a deixa: era a primeira vez que via um banco quebrar não por falta, mas por “excesso de fundos”. Doutra feita, Emílio viajava num bonde em cujos bancos só cabiam quatro passageiros. O do escritor já estava lotado, quando surgiu uma conhecida cantora lírica tentando com dificuldade acomodar-se a seu lado, tão obesa quanto ele. Foi a deixa para mais um trocadilho: “Oh, atriz atroz, atrás há três!”. Não foi à toa que Monteiro Lobato, após encontrá-lo certa vez, disse que riu tanto que voltou pra casa com os músculos da face doloridos.
Era de se esperar, portanto, que todo esse deboche conquistasse desafetos. Machadão não gostava dele de jeito nenhum e chegou a botar areia em seu ingresso na ABL. Além de implicar com a boemia de Emílio – que destoava dos bem-comportados imortais da ABL –, o Bruxo do Cosme Velho ficava emputecido com as zoeiras dele contra Mário de Alencar, seu protegido (e, segundo babados da época, seu filho com a mulher de José de Alencar). Em Mariposas, por exemplo, Emílio ridicularizou a candidatura do filho de José de Alencar (ou de Machado?) à ABL:⠀
A “Panelinha” da literatura
Que ferve no fogão da Academia,
Vai frigir, em tenríssima fritura,
O “enfant-prodige” da burocracia.
Foi por essas e outras que Emílio só conseguiria ser eleito para a Academia muitos anos após a morte de Machado, em 1908. Curiosa é a razão para sua eleição, explicada por escritores como Medeiros de Albuquerque e Bastos Tigre: Menezes foi eleito por MEDO, pois suas sátiras eram tão ferinas e populares que muitos intelectuais temiam se tornar alvos delas. Ou seja, os medrosos imortais votaram nele como garantia de que, tendo ele sempre por perto, se protegeriam do veneno de seus versos. Sua eleição, em 1914, foi esmagadora.
Já tomar posse foram outros quinhentos: seu discurso detonaria vários imortais. Medeiros e Albuquerque, presidente da ABL, mandou retirar as ofensas, mas Emílio as manteve. Durante anos rolou um impasse: “Você tem que mudar o discurso” versus “Não vou falsificar o que penso”. E assim Emílio permaneceu, tendo falecido quatro anos depois. Mas nem a morte escapou do trocadilho: já muito doente e sem sentir as pernas, teria dito ao médico: “Doutor, estou morrendo à prestação...”.




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