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Filólogo descobre prompts que Camões teria usado para fazer fanfic da Eneida

COIMBRA (Reuters) – Nos últimos anos, com o crescimento da suspeição de qualquer texto bem escrito atribuído a um autor humano, diversos filólogos e críticos literários se dedicaram a investigar como o português Luís Vaz de Camões (1524–1580) teria conseguido redigir sozinho sua monumental epopeia. Até pouco tempo atrás, isso constituía um dos maiores enigmas da história da literatura; após inúmeras pesquisas, no entanto, toda essa busca parece ter finalmente chegado ao fim.

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Isso porque o camonista Tomás Álvaro de Sequeira, professor da Universidade de Coimbra, alega ter descoberto todas as instruções, comandos, diretrizes e gatilhos que Camões teria empregado para encomendar seu poema épico, sem a necessidade de qualquer trabalho mental, limitando-se a copiar, colar e assinar as respostas recebidas. Durante consulta a documentos provenientes do espólio do Mosteiro de Santa Cruz, conservados na Torre do Tombo (Lisboa), Sequeira revirava cartas régias, códices e manuscritos diversos quando se deparou com alguns documentos reveladores. Um deles é um rascunho de abertura da epopeia, em que Camões fazia Virgílio aparecer como um gigante diante do próprio poeta, dizendo-lhe:

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“Tu que dos meus cantares, sem que pese,

Tomaste a lira e a proa e a heroica farda

Podes, ó caolho, o meu caminho igualar:

Copiar bem podes; fazer igual, jamais.”

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Mais adiante, o pesquisador se deparou com estranhas orientações anotadas num papel de trapo. Num dos trechos mais estranhos desse manuscrito, consta:

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“Escreve huma epopeia nova, grave e elevada, para ser assinada por mim, tendo no titulo o vocabulo ‘lvsiada’, criado pelo frade sabichão de Évora. Tomando a Eneida de Virgilio por modelo, copiar bem podes; fazer igual, jamais. Segue-a com engenho; emula-a. Segue-lhe o artificio e a ordem, mas não lhe sejas servo; imita-lhe o engenho, não a letra. Conserva a invocaçam, a viagem, os combates, os conselhos, os pressagios, o luto, a fama e o remate da obra, porém ordena tudo para celebrar navegacçoens, feitos de armas, fortuna adversa, gloria e grandeza de hum povo.”

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“Não reproduzas episodios de Eneas nem lhe furtes os nomes, lugares ou acçoens; faze materia nova, mas digna de hum grande poema nacional e maritimo. O heroe seja humano e digno, sujeito a alto destino, passando por trabalhos, perdas, constancia e galardão. A obra pareça antiga na gravidade e no decoro, mas nova na invenção, no engenho e nas figuras.”

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“Emprega dicçam elevada, imagens maritimas e bellicas, sentenças moraes, louvor da constancia e memoria da fama. Não escrevas em tom moderno, jocoso ou parodico. O resultado deve ser huma epopeia séria e elevada, digna de memória, apta a sustentar-se como padrão de correcção da lingoa portugueza e magnum opus da litteratura portugueza.”



“Luís de Camões encontra o gigante Virgílio”, gravura de Alexandre-Évariste Fragonard para uma edição apócrifa de Os Lusíadas (1817).
“Luís de Camões encontra o gigante Virgílio”, gravura de Alexandre-Évariste Fragonard para uma edição apócrifa de Os Lusíadas (1817).

Junto desse papel, um rascunho do último canto continha em seu final outro trecho revelador:


“Se desejares, posso gerar agora huma versão da epopeia mais chegada ao estylo de Homero, em lugar dos moldes latinos”.


Naquele momento, o estudioso não teve dúvidas: estava diante do mais bem guardado segredo da história da língua portuguesa. Após comparar estilo, documentos, correspondência e outras evidências, ele conseguiu identificar nessas instruções a autoria do célebre poeta-soldado. Todo o resultado de sua minuciosa pesquisa pode ser conferido no mais recente número do periódico acadêmico Biblos, da Universidade de Coimbra.

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O artigo sustenta ainda que os tradicionais loci communes, até hoje entendidos como lugares-comuns da retórica humanista, eram, na verdade, um verdadeiro banco de prompts, no qual poetas renascentistas reuniam comandos, modelos de estilo e instruções reutilizáveis para a composição de obras literárias.

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“Sempre nos pareceu absurdo que alguém desenvolvesse magistralmente, de seu próprio punho, 9 mil versos repletos de cultismos, neologismos eruditos e criações lexicais, construídos com uma arquitetura narrativa em múltiplos planos, engenhosa fusão de história e mitologia, síntese entre lirismo e objetividade, domínio absoluto da oitava-rima, sucessivos hipérbatos extremamente elaborados e musicalidade excepcional, controlando centenas de referências e tradições, períodos longos com diversas orações subordinadas e inversões sintáticas e, pior, sem um único erro de português”, disse o crítico literário. “Agora, temos toda a certeza de que aquele soldado caolho não passava dum impostor”.

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De acordo com Sequeira, essa descoberta põe por terra o mito que atribuía a supostos gênios clássicos como Ariosto, Torquato Tasso e Pierre de Ronsard todo o mérito por obras que, na verdade, são fruto de inteligências não humanas, orientadas por instruções de imitatio renascentista.

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Com essa revelação – que isenta finalmente as pessoas da pesada obrigação de ter que pensar para escrever –, filólogos, críticos literários e especialistas em escrita criativa agora se debruçam sobre outra intrigante questão: como Camões teve acesso a uma tecnologia que, até pouco tempo atrás, era totalmente desconhecida? “Não sei. Mas nada disso muda o facto de que agora sabemos que ninguém é capaz de escrever com tamanha qualidade sem o auxílio da IA”, disse o filólogo.

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A descoberta fez surgir também outro questionamento: se Camões usou IA para criar uma fanfic da obra de Virgílio, não teriam sido todas as grandes obras clássicas gregas e latinas, como Odisseia e Eneida, também frutos de encomenda para uma inteligência não humana? “Não deve demorar muito até descobrirmos que nem Homero, nem Virgílio, nem nenhum dos autores clássicos da Antiguidade eram inteligências humanas, pois é humanamente impossível compor uma miríade de versos sem perder a grandiosidade, o estilo e a correcção numa única linha”, disse Sequeira. “Só algo artificial é capaz de semelhante façanha épica”.

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