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O gramático e o linguista entram num bar...


O gramático e o linguista entram num bar. O gramático, que namorava a Norma, chegou AO local e sentou-SE À mesa, dizendo que tinha DE sorver um vinho português. O linguista, que namorava COM uma variante malfalada, chegou NA área e sentou NA mesa, berrando que tinha QUE tomar uma breja trincando.


Incomodado com aqueles modos, o gramático, de mãos dadas com a Norma, voltou-se para a mesa do linguista e o provocou:


– Quero ver você escrever livros e dar aulas com essa desqualificada.


O linguista, enroscado nos braços da variante, respondeu:


– Ô pela-saco, não sou monogâmico, não. Também troco saliva com a língua culta. Mas, ó, cê tá ligado que a Norma tem flertado com uns escritores modernos, né? É que ela curte umas variações que o cânone da tua gramática não dá conta, de tão pequeno que é...


O gramático melindrou-se, encolerizou-se e ergueu-se, pirado na ênclise; o linguista se empolgou, se levantou e se esbaldou com estas e outras próclises. O gramático lançava os mais arcaicos e eruditos insultos portugueses, mas o linguista o golpeava com cabulosos xingamentos do mais baixo calão brasileiro; sem nenhum domínio do português informal, o gramático reagiu com ofensas em latim vulgar: Canis filius! Futue te ipsum! Fellator! Cinaede cacator! Asinus stultissimus! Em vez de separarem os rivais, os demais presentes faziam apostas na rinha, transmitida ao vivo por celulares. A baixaria virou pancadaria e só terminou quando a polícia chegou.


Enquanto os amantes da língua prestavam depoimento na delegacia, do lado de fora a Norma desabafava com a variante:


– Miga, pra mim já deu. É da minha natureza ser fina e educada, mas Napoleão é careta demais. Ele me ama, mas é possessivo e moralista. Me idealiza, me controla, me sufoca. Não posso nem usar uma prosódia mais confortável, uma regência mais decotada que ele começa a reclamar! Não aguento mais assistir show com aquela preposição inútil.


– Mana, larga esse redpill. Não é separação, é livramento! Bora dar um rolê na minha quebrada. Vou te levar num lugar onde toca uma sintaxe daora. Lá cê vai provar uma porção de galicismo, encher a cara de neologismo, sem culpa e sem ninguém pra ficar te regulando – disse a variante, enquanto puxava a Norma pelo braço rumo ao boteco mais popular da cidade.

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