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Pergaminhos revelam verdadeira causa do fim do império romano: barbarismos

BOLONHA (Reuters) – Pesquisadores da Universidade de Bolonha (Itália) anunciaram esta semana a descoberta de manuscritos em pergaminhos que revelam uma faceta até então desconhecida da Antiguidade Clássica. Redigidos em latim escorreito, os documentos revelam queixas e lamúrias das elites sobre a vandalização do idioma do Lácio tanto por jovens romanos quanto por povos invasores, fato que elas consideravam a principal razão para a ruína de seu império.

Segundo Ivano Dionigi, professor de Línguas Clássicas da universidade, durante o século V d.C., ao invadir a Europa e chegar a Roma, indivíduos das tribos germânicas espalharam-se por todas as esferas sociais, de postos do exército a cargos políticos, apropriando-se de costumes e tradições, assimilando o latim do jeito que bem entendiam e nele introduzindo estrangeirismos, para o pavor dos patrícios. “Se a nobreza já via o latim vulgar de plebeus e soldados com aversão e preconceito, ela surtou de vez quando ouviu o latinório de visigodos e vândalos ecoando por palácios, templos, termas e residências”, relata o professor.


Enquanto isso, a juventude romana criava seu próprio dialeto. “Vale tudo agora: ‘totix’ no lugar de ‘totus’, ‘veeni’ em vez de ‘veni’ ... Essa geração está assassinando a língua de Virgílio! Cícero se revira no caixão!”, queixa-se o patrício Ferdinandus Pestanus, num dos manuscritos, sobre os vícios na fala e na escrita dos mais jovens. Pestanus preparava jovens para o concurso do senado romano e lamentou ver a tradição que ele tanto defendia se desfazer, fato para o qual contribuiu seu desafeto Marcus Bagnus, filósofo que criticou e combateu o ensino do latim-padrão.

Durante algum tempo, nos grandes centros urbanos, o ensino da língua pátria promovia o padrão literário e, com isso, conseguia refrear o avanço dos barbarismos. Já no campo, nas vilas e nas aldeias, o latim, livre de qualquer controle normativo, “ficou entregue, como dizem os gregos, ao zeus-dará”, lamenta o astrólogo Olavus Carbalius num dos documentos encontrados.


Trecho de um dos manuscritos encontrados pelos pesquisadores da Universidade de Bolonha: indignação contra o “assassinato” do latim
Trecho de um dos manuscritos encontrados pelos pesquisadores da Universidade de Bolonha: indignação contra o “assassinato” do latim

Os manuscritos revelam que, “para os aristocratas, a contaminação do latim era mais grave e trágica que a decadência moral ou a vandalização de Roma”, diz o arqueólogo Valerio Manfredi, do grupo de pesquisadores de Bolonha. Com base nos documentos encontrados, ele constatou que, enquanto muitos se entregavam a vícios e devassidão e o Coliseu, monumentos e prédios iam sendo pilhados e devastados, os nobres, os clérigos e os gramáticos tinham como única preocupação a variedade de latim por eles usada e tida como única correta. “Matem-me, mas não me deixem mais ouvir ‘oricula’ no lugar de ‘auricula’!”, suplicou um bispo a um visigodo durante o saque de Roma em 410 d.C., conforme relato de um dos pergaminhos.


As reclamações não se limitavam aos erros gramaticais daqueles a quem chamavam de barbari, uma vez que estes também trouxeram toda sorte de germanismos para o latim, contaminando sua pureza: raubon (roubar), spaíhô (espiar), werra (guerra, que acabou substituindo, em boa parte da Europa, a palavra latina bellum), gasalja (agasalho, agasalhar), brutôn (brotar) etc. “Para os puristas da época, foi um Vesúvio linguístico”, diz o professor Manfredi.


Naquele último século da Antiguidade Clássica, o ideal de unidade linguística do império começou a ser abandonado. “Com o latim maculado e o orgulho linguístico ferido, os romanos desistiram de lutar contra o barbarismo, entregando-se de vez à variação, à mudança e à importação. Mas esses latinos cultos do século V não tinham do que se culpar ou se envergonhar. Antes deles, outras gerações de patrícios já vinham desobedecendo ao latim-padrão. Romanos se sentiam tentados não só pela corrupção como também pelas corruptelas”, conclui o professor Dionigi.


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