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As broncas gramaticais do desbocado Graciliano

“Desconfio que Graciliano sabia mais português que Aurélio”, disse numa ocasião a escritora Rachel de Queiroz. Além de escritor, Graciliano Ramos foi um rigoroso revisor de texto. Era bem grammar nazi mesmo, e ai de quem cometesse erros de português na redação do jornal: “Seu cavalo!”, xingava.


É de se imaginar que toda essa intolerância não ficasse restrita ao ambiente de trabalho. Nos anos 40, quando Graciliano era filiado ao PCB, um escritor compareceu a uma reunião do partido para pedir que endossassem um manifesto contra o imperialismo, mas caiu no vacilo de ler seu texto em voz alta justamente diante do Graciliano: “Ao farfalhar das águas...”. O escritor alagoano interrompeu a leitura com um murro na mesa, berrando:


– “Farfalhar das águas” é a PUTA QUE O PARIU! O que farfalha é folhagem!


Em questões de língua, suas críticas não eram apenas gramaticais, mas também estilísticas. O poeta Lêdo Ivo conta um episódio ocorrido durante o trabalho de revisão no periódico Cultura Política (1941-1945). O autor de um artigo tinha abusado conjunções adversativas: “Mas, no entanto, contudo, todavia, o Estado Nacional...” Graciliano não se conteve:


– Mas, no entanto, contudo, todavia... é a PUTA QUE O PARIU!


“Vai ser pedante assim lá na PQP!”
“Vai ser pedante assim lá na PQP!”

Essa irritação se estendia aos estrangeirismos e ao uso de determinadas palavras, ainda que corretas. Nos anos 30, após sair da prisão, o escritor passou a trabalhar como copidesque do jornal Correio da Manhã (RJ). O jornalista Franklin de Oliveira conta que, certa noite, ainda na redação, o escritor interrompeu a leitura de um original ao encontrar nele o arcaico advérbio “outrossim”. Levantou a cabeça e berrou:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀


 – Outrossim... Outrossim... Outrossim é a PUTA QUE O PARIU!


Por aí já é possível deduzir que Graça também não perdoava os pedantes. Ao prefaciar o livro do vencedor de um concurso literário, ele escreveu que o autor “não pratica os erros voluntários de certos cidadãos que, escrevendo sistematicamente às avessas, são puristas falhados, que tentam forjar uma língua capenga e falsa”.


Uma das melhores fontes para conhecer esses e outros PQPs é o livro O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos (2012), de Dênis de Moraes.

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