top of page

Em decisão inédita, Vaticano excomunga fanáticos pelo latim

CIDADE DO VATICANO (Reuters) – O Vaticano anunciou nesta segunda (6) a excomunhão de religiosos da Fraternitas Latinitatis, grupo católico que promove radical reconciliação do português com as línguas clássicas sem aprovação do papa Leão 14. A fraternidade é famosa por celebrar missas inteiramente em latim com quatro horas de duração, forma de penitência apreciada por fiéis que, mesmo sem compreensão da Lingua Ecclesiæ, defendem o statv qvo dessa mortificação.


Dias atrás, o Sumo Pontífice havia feito um último apelo para que os fundamentalistas desistissem de reeducar o português segundo a língua de Roma, de usar gramáticas apócrifas e de promover relatinizações arbitrárias. Fundada em 1970, a entidade, cujos padres são acusados de latinofilia (fetiche por restos mortais de latinos), vem atraindo jovens seduzidos pela orthographia etymologizante.


Segundo decisão do decreto, o grupo – que queima gramáticas que julga blasfemas e segue os catecismos de Filinto Elísio e Odorico Mendes – não pode mais oficiar longas missas em latim. A excomunhão atinge latinistas como Castro Lopes Neto, que doutrina fiéis com neologismos inspirados na Lingva Cæsaris para sanear o idioma dos estrangeirismos, ensinando premagem no lugar de ‘massagem’, ancenúbio em vez de ‘nuance’, preconício em substituição a ‘reclame’ e ludâmbul no lugar de ‘turista’.


Padres participam de procissão antes da relatinização cismática de palavras portugueses realizada pela ultralatinista Fraternitas Latinitatis, em São Paulo (Fabrice Coffrini /1º. jul. 26/AFP)
Padres participam de procissão antes da relatinização cismática de palavras portugueses realizada pela ultralatinista Fraternitas Latinitatis, em São Paulo (Fabrice Coffrini /1º. jul. 26/AFP)

O cisma teve início quando os ultralatinistas começaram a ensinar portuguesas relatinizadas – corrigindo ‘salmo’, ‘nunca’ e ‘como’ para psalmo, nunqua e quomo –, visando o reavivamento do Etymologismo, heresia condenada pelo Concílio de Trento (1545–1563).


O Vaticano também informou que, num primeiro momento, tentou reconduzir os dissidentes à “plena comunhão com o português moderno”, mas depois “a situação se agravou com o recrudescimento das ações, que passaram a corrigir ‘conhecer’ para cognoscer, ‘olho’ para oclho, ‘isso’ para ipso, ‘até’ para hacte e ‘princesa’ para princepsa, por exemplo”.


A Fraternitas reúne cerca de 6 mil ex-alunos de seu fundador, arcebispo Napoleão (1911-1998). O grupo prega submissão absoluta do português ao latim e rejeita todo e qualquer estrangeirismo e brasileirismo, bem como mudanças linguísticas ocorridas do século XX em diante, não reconhecendo nenhum escritor canonizado do Modernismo para cá. Também rechaça o ecumenismo linguístico e defende um modelo de sociedade matriarcal – isto é, baseado na língua-mãe –, um Estado latinocrático e a instituição, nas escolas, de cantvs gregorianvs e da correctio verbervm, antiga correção com vara para cada erro de pronúncia ou ortografia.


Militantes do classicismo, os dissidentes defendem não só a relatinização como também a re-helenização, condenando, por exemplo, as grafias mais fonológicas ‘teocracia’, ‘filósofo’, ‘abismo’, ‘lira’ e ‘fotógrafo’ e as corrigindo para as formas mais gregas possíveis: théocracia, philósopho, abýsso, lýra e photógrapho, a fim de restaurar a etimologia em toda a sua epicidade. O rigor inclui até mesmo a nomenclatura régia dos papas, grafada por eles sempre em latim e em romanos – Leo XIV – contra o uso moderno ‘Leão 14’ e exigência da ligatura Æ/æ em palavras portuguesas.


Ao ser notificado da acusação de cisma, o líder da entidade, padre Davide Pagliarani, respondeu apenas que “não é ‘cisma’, é schisma”. Ele também disse estar lisonjeado com as denúncias de heresia: “Aliás eu amo essa palavra, pois o latim hæresis é latinização do grego αἵρεσις, haíresis”.


Diante da excomunhão, a comunidade católica se dividiu. “A Igreja sempre boicotou essa fraternidade, cujos fiéis só querem pagar penitências assistindo longas missas em latim. Se fossem linguistas ateus, o Vaticano se abriria para o diálogo”, queixou-se o padre Ferdinandvs Pestanvs, do Centro Dom Bosco. “A cadela do purismo está sempre no cio. No dia em que eles descobrirem que a fonte mais remota de todo esse classicismo não vem de Roma nem da Grécia, e sim do Egito e da Mesopotâmia, terão um delíquio”, disse o frei Leonardo Boff, fundador da Teologia da Variação.


Comentários


©2021 por Paródia Editorial.

LOGO HORIZONTAL_BRANCO.png
Logo-gramatica.png
bottom of page