Escrever corretamente não significa que você tem o molho
- Evandro Debochara

- há 5 horas
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Recentemente, um médico viralizou ao dizer no Threads que só escreve bem quem conhece a nomenclatura ensinada pelos gramáticos em análise sintática. Também afirmou que, se você, por exemplo, não sabe a diferença entre oração coordenada e subordinada, não sabe pontuar adequadamente; e, “se não sabe fazê-lo, não escreve bem”. Nessa ocasião, muita gente se lembrou do tanto de autores brasileiros que se notabilizaram pela expressividade, engenhosidade e graciosidade sem se primar por raciocínio sintático, excelência gramatical ou rigor formal. Vejamos a seguir três casos que, embora distintos entre si, têm em comum a genialidade prosaica ou poética exercida sem o formalismo da gramática.
Apesar da ótima educação formal, Lima Barreto (1881–1922) apresentava uma escrita pouco polida, pouco revisada e de estilo coloquial que era malvista por amantes da prosa rebuscada dos afetadinhos da ABL. Em seu tempo, muitos lhe criticavam a sintaxe despojada, a pontuação irregular, as repetições vocabulares e os períodos construídos de forma pouco elegante, mas a virtude de sua linguagem transparente – dotada de corrosiva ironia, poderosa crítica social e personagens de real humanidade – foi sendo reconhecida posteriormente. Esnobado em vida, hoje é tido como genial romancista e cronista.
Já Patativa de Assaré (1909–2002) tinha instrução formal bem precária, mas era autodidata e lia clássicos literários e tratados de versificação, aprendendo a usar os recursos da poesia erudita. Escrevia deliberadamente numa norma inculta, estilizando a oralidade sertaneja e empregando frequentemente formas incorretas de grafia, flexão, concordância e regência; mas essa falta de correção gramatical nunca significou falta de domínio poético, que ele desenvolveu com maestria no controle de ritmo, métrica, rima e composição, exibindo expressividade comparável (e, para alguns, superior) à de diversos poetas academicistas.
E Carolina Maria de Jesus (1914–1977), que cursou apenas os dois primeiros anos do ensino primário? Autodidata que era, lia assiduamente jornais, dicionários e obras clássicas, adquirindo amplo repertório vocabular e uma sintaxe que, mesmo vacilante, remete à tradição literária do século XIX. Sua escrita, notória pelo lirismo, pela fabulação e pela poesia, é fruto de uma formação construída, em boa parte, pelo próprio esforço pessoal e pela leitura dedicada num cenário de exclusão. Sem a excelência formal dos clássicos, foi traduzida para 14 diferentes línguas.

Como se vê, “escrever bem” não deve ser entendido unicamente como sinônimo de redigir corretamente ou ter consciência das engrenagens gramaticais, até porque a intuição sintática não exige conhecimento de metalinguagem. Diariamente, zilhões de falantes montam períodos complexos e inteligíveis sem nunca aprender a identificar uma oração subordinada adverbial reduzida de gerúndio. Um piloto pode dirigir muito bem sem entender toda a engenharia do motor nem saber repará-lo; o mesmo acontece com o escritor em relação ao gramático, ao revisor e ao crítico literário. Alguém que domina a sintaxe culta “escreve bem”, SIM; mas isso pode significar apenas FORMA, sem ter o molho, isto é, sem talento, criatividade ou engenhosidade, qualidades que, em outro aspecto, também significam “escrever bem”.
Essa distinção entre escrever corretamente e escrever com talento também ajuda a compreender por que muitos autores não precisam analisar a própria escrita com o mesmo instrumental de gramáticos, filólogos ou críticos literários. O uso linguístico precede tanto a regra que o descreve quanto a crítica que o interpreta: primeiro o escritor produz; depois o revisor aprimora a forma, o gramático descreve, o filólogo investiga e o crítico analisa.
Essa diferença entre criar uma obra e analisá-la não é exclusiva da literatura. Assim como músicos compõem canções sem analisá-las da mesma forma que os críticos musicais, também os escritores produzem romances, contos e poemas sem a pretensão de dissecá-los como fariam críticos literários, filólogos ou professores. Podemos ver esse caso ilustrado por Stanislaw Ponte Preta em sua crônica “O antológico Lalau” (1966). Nela, ele conta que certa vez um amigo o parabenizou por ter se tornado um “escritor antológico”. Ele só entendeu o que tinha ouvido após chegar em casa, ao se deparar com a Antologia para o Ensino Médio de Português, enviada a ele com dedicatória pelo autor, que era professor de literatura e crítico literário. Ao folhear a obra, ele se depara com um questionário fazendo perguntas sobre aspectos de sua crônica cujas respostas ele próprio não sabia dar ou apontando coisas que, em seu entendimento, nada tinham a ver com o que ele havia escrito.
Isso mostra que estudiosos de uma obra podem fazer dela uma leitura que estabelecem como a “correta”, mas que seria tida como errada ou estranha pelo próprio autor. Em 2017, Nando Reis se deparou com questões de uma banca examinadora sobre a letra de sua canção “Vou te encontrar” na prova de um concurso. E ficou surpreso em constatar que suas próprias interpretações não eram aquelas consideradas corretas pela banca. Ou seja, se tivesse feito o concurso, o ex-Titã teria errado a interpretação de seu próprio texto.
Criar uma obra, descrevê-la e interpretá-la são atividades intelectuais distintas, embora frequentemente confundidas. O fato é que, se se submetessem à chatice dos concursos, os mais criativos e engenhosos prosadores, poetas e letristas talvez errassem muitas questões de análise sintática, correção gramatical ou mesmo interpretação textual... e levassem pau em redação.
O grande linguista Mattoso Câmara Jr. dizia que os clássicos portugueses eram na verdade escritores ingênuos e despreocupados no dizer, mas que muitos eruditos atribuem a eles uma intenção consciente de rigorismo e purismo que nunca tiveram. O que tinham, na verdade, era o molho, coisa que muita gente correta, culta ou concurseira por aí não tem.




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