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Preciosismo: virtude literária, vício dissertativo

O candidato ao curso de Direito da Fuvest tirou zero por fugir do tema, e não por causa das palavras difíceis, do rebuscamento, dizem trocentas pessoas nas redes. Na verdade, tanto a fuga quanto o preciosismo são problemas. Diferente do que afirmam, essa ostentação de erudição, passível de apreciação literária, se torna um problema em redação dissertativo-argumentativa.

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O estilo desse candidato é fruto duma prática milenar, com raízes na Antiguidade Clássica. O gramático latino Quintiliano (séc. I d.C.) já denunciava o preciosismo em oradores em Roma: As palavras que revelam rebuscamento e que pretendem parecer também produzidas e artísticas não conseguem sequer beleza e perdem credibilidade pelo fato de obscurecerem o significado e de o sufocarem como as searas o são pelo capim exuberante, dizia ele dois mil anos atrás.

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Já no Barroco, o rebuscamento vira qualidade estilística. Dentro do movimento, surge algo ainda mais sinistro: o gongorismo, inspirado no estilo do poeta espanhol Luis de Góngora, com abuso de palavras eruditas e afetação levada ao extremo. É nessa mesma época que, em salões literários da França, a palavra préciosité adquire os sentidos de afetação" e rebuscamento, designando um movimento com preocupação maior pela originalidade da forma do que pelo conteúdo, abuso de palavras incomuns e expressão de coisas que poderiam ser ditas por um número menor de palavras e de modo mais claro.

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Na língua portuguesa, o preciosismo evolui para formas criativas, arcaizantes, latinizantes e eruditíssimas por meio do poeta Filinto Elísio, que chama um trovão de flamispirante" e uma língua de "oco-rimbomba; do poeta e tradutor Odorico Mendes, que apreciava uns aplustres, exíciose marvócios; e do escritor Feliciano de Castilho, com sua rubiplúmea corda" e sua vaca albistelada. Mais adiante, o rebuscamento se renova na poesia de Olavo Bilac, que declamava “tuba de alto clangor”, “trom e silvo da procela” e trasmonta fulvo o sol; e na prosa de Coelho Neto, com seus caramanchéis em cúpulas e desgrenhadas casuarinas que desferiam gemidos eólios. Some-se isso ao pedantismo de Ruy Barbosa e fica evidente a inspiração do candidato da Fuvest.



Se no texto literário o rebuscamento pode ser apreciado como estilo de poetas e prosadores, nos demais tipos de texto – com finalidades bem diferentes – ele se torna erro a ser evitado. Vários gramáticos (Said Ali, Cegalla, Napoleão, Sacconi etc.) ensinam que O PRECIOSISMO É VÍCIO DE LINGUAGEM, mas muitas pessoas que se dizem amantes da língua portuguesa ou defensoras do vernáculo ignoram essas lições – porque, contraditoriamente, não leem gramáticas! – e veem esse vício como virtude.

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É um vício que quase não se vê nas ruas, mas principalmente em escritórios de advocacia, varas e tribunais, onde se escondem os usuários mais dependentes da afetação. Vários especialistas em português jurídico (Antônio Gidi, Eduardo Sabbag, José Maria da Costa etc.) alertam os viciados sobre os males desses entorpecentes: falta de concisão, prejuízo à clareza, à precisão e à objetividade, confusão, obstáculo à comunicação... Mas às vezes é tarde demais para certos advogados, juristas, juízes e ministros, que não conseguem mais se abster de tranquibérnia, empós, enjambrar-se, datissima venia, adredemente, hebdômada pretérita, pretoriamente" e outras drogas de difícil desintoxicação.

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Hoje em dia essa falsa virtude jurídica deixou de ser uma descoberta da vida profissional: um jovem que nem sequer ingressou no curso de Direito já se viciou precocemente no alucinógeno como se isso fosse pré-requisito para ingresso no curso. Que ele aproveite esse talento como poeta ou prosador, mas que não dissemine essa criatividade em outros gêneros textuais, sob aplausos de gente fascinada mais com a forma do que com o conteúdo.

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