O irresistível poder da língua em uso
- Evandro Debochara
- há 44 minutos
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Ao idealizar regras gramaticais ou tentar preservar tradições normativas que condenam usos consolidados em língua corrente, corremos sempre o risco de contrariá-las apenas por exercermos o direito de usar a língua como ela é, e não como (alguns acham que) “deveria ser”. Quando a regra é mero filtro das possibilidades legítimas de se expressar, adivinhe o que acontece...
1) No Manual de Redação e Estilo do Estadão (3. ed., 1997), Eduardo Martins afirma que “junto com” é redundância e prescreve o uso apenas de “com”:
“Junto com. Redundância. Use ‘com’, apenas: Os empresários participaram da iniciativa com (e não ‘junto com’) os sindicalistas. / Saiu com (e não ‘junto com’) o diretor.” (p. 153)
É bem verdade que podemos fazer emprego apenas de “com” nesses contextos, mas o uso da preposição “com” associada ou não a “junto” é mera questão estilística; a locução “junto com”, comum desde os tempos de Camões, nunca foi redundância viciosa nem obrigatoriamente descartável e tampouco condenada por gramáticos, sendo tão natural que o próprio autor acaba fazendo espontâneo uso dela nesse mesmíssimo manual:
“[...] a consoante simples acompanhada da vogal que é pronunciada junto com ela (p. 99)
Depois Martins vai mais além, usando “junto com” como exemplo de correção (!):
“Pode ser ‘junto a’, ‘junto de’ ou ‘junto com’: Estava junto do pai. / As casas ficavam junto do mercado. / Construiu o edifício junto à estação. / Saiu junto com o tio. / Levei-os junto comigo.” (p. 152)
2) Na 1ª (2013), na 2ª (2015) e na 3ª (2017) edição de sua gramática concurseira, Fernando Pestana prescreve a seguinte lição:
“Omite-se o artigo definido antes dos possessivos [...] nas locuções com pronome possessivo (a meu ver, em meu ver, a meu modo, a meus pés, em seu favor, em minha opinião, a seu bel-prazer, por minha vontade etc.)”
Trata-se de regra supostamente baseada no uso dos clássicos, idealizada por eruditos no século XIX, reforçada no século posterior e abraçada por certos autores contemporâneos, mas que nunca refletiu toda a realidade da tradição escrita (uma vez que literatos portugueses e brasileiros sempre variavam entre o uso com e sem artigo). É, enfim, norma imposta por aí, mas tão artificial que Pestana contraria os próprios exemplos de correção citados em inúmeras ocorrências de sua gramática (como “em minha opinião”), fazendo o uso com artigo que todo mundo faz. Algumas delas:
“Na minha opinião, nenhuma banca deveria expor quaisquer polêmicas [...]” (p. 647)
“ [...] é incrivelmente (na minha opinião) facultativo [...]” (p. 1030)
“Na minha opinião, como existe uma ‘melhor resposta’ nesta questão que criei, e não é a letra C, [...]” (p. 1373)
“Serei um homem mais sério ao seu lado” (p. 540)
“Ao seu redor […]” (p. 915)
“O aprendizado da Ortografia Oficial está ao seu alcance” (p. 108)
“O fato de ter uma pessoa amiga ao meu lado em situações difíceis” (p. 689)

O fato é que, em algum momento, Pestana acabou descobrindo a seguinte advertência de seu mestre Evanildo Bechara, que inclusive cita vários dos exemplos empregados pelo próprio professor concurseiro:
“As duas formas [com e sem artigo] são correntes e corretas. Sem o respaldo dos melhores escritores, tem-se abusivamente condenado o emprego do artigo junto a possessivo em expressões do tipo ao meu ver, ao meu pedido, ao meu modo, ao meu lado, ao meu bel-prazer etc.” (Bechara, 2015, p. 164).
Em seguida, o gramático cita exemplos de literatos de diversas épocas usando essas expressões com e sem artigo (algo que, aliás, um lúcido filólogo de fins do século XIX já havia demonstrado, mas para o qual ninguém deu muita bola na época).
Não deu outra: na 4ª edição (2019), o pestanudo apagou essa regra que nem ele mesmo seguia, não tocou mais no assunto e continuou fazendo o uso de sempre, com artigo.
Como se pode notar, os casos acima mencionados não são erros: os autores apenas fizeram uso – ainda que inconsciente – do que há de mais legítimo em língua portuguesa, contrariando certas regras artificiais que idealizavam.
