“Falhas do Grande Aurélio” (1984): o tradutor que passou um pente-fino no dicionário
- Evandro Debochara

- 27 de jul.
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Atualizado: 28 de jul.
Em meados dos anos 70, um filósofo e tradutor paulista começou a reunir uma série de lacunas, equívocos e erros encontrados por ele na primeiríssima edição do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Os primeiros apontamentos foram feitos em artigos publicados em jornais interioranos e na Revista Brasileira de Filosofia. De início, os problemas listados eram relacionados principalmente à filosofia, sua área acadêmica. Posteriormente, toda a sua família passou a colaborar na coleta. Quase 10 anos depois, quando já haviam sido reunidas mais de mil observações, ele datilografou tudo e elaborou uma autopublicação – encadernada em grampos e ‘normografada’ na capa – intitulada Falhas do Grande Aurélio.
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Além de filósofo e tradutor, Carlos Lopes de Mattos (1910–1993) era escritor. Estudou na Universidade Católica da Lovaina (Bélgica) nos anos 30 e doutorou-se em 1940. De volta para o Brasil, exerceu o magistério em Filosofia e publicou vários artigos na Revista Brasileira de Filosofia (1951-2000). Como tradutor, colaborou para as primeiras edições da coleção Os Pensadores (editora Abril), traduzindo textos de Guilherme de Ockham, Tomás de Aquino e Baruch Espinosa. Teve vários livros publicados, entre eles Vocabulário Filosófico (1957) e História da Filosofia (1989).
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Entre as palavras (e, algumas vezes, os sentidos) ausentes no dicionário, o erudito autor listou “antepasto”, “axexê” (rito fúnebre do candomblé), “caramelizar”, “criacionista”, “dálmata” (raça canina), “denotativo”, “desestatização”, “devido a” (locução), “diesel”, “elencar”, “embaúba”, “estatismo”, “estruturalismo” (uma ausência “que só por esquecimento se explica, tantos são os usos”, diz o autor), “falangista”, “farmacólogo”, “gardenal”, “genoma”, “homozigoto”, “hortifrutigranjeiro”, “inoperosidade”, “insuspeitado”, “invertase”, “iode”, “islamizar”, “jaguatirão”, “laranja-seleta”, “noves-fora”, “ômicron”, “ONU”, “papiamento”, “policialesco”, “pombas” (interjeição), “pós-guerra”, “predicável”, “pré-requisito”, “problemática” (substantivo), “progressismo”, “quilombola”, “recíproca” (substantivo), “reumatoide”, “roraimense”, “seriguela”, “serotonina”, “silogística”, “sincretizar”, “superego” e “univitelino”.
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Também foi apontada a falta de vários latinismos, como horresco, lapsus calami, nihil obstat, post scriptum, via crucis, além de estrangeirismos diversos já consolidados e usuais na língua da época, como apartheid, art nouveau, hamster, last but not least, ok, pogrom e self-service.
O filósofo também registrou a omissão de gírias e termos populares de seu tempo, como “boca de siri”, “biônico” (senador ou governador nomeado ou eleito indiretamente durante a ditadura militar), “casa da mãe joana”, “conversê”, “desgramado”, “disse que disse”, “magrela” (bicicleta), “morenaço”, “eminência parda”, “fuleiragem”, “piaba” (surra), “nó-cego” (indivíduo espertalhão; pessoa desagradável, que aborrece e irrita) e “sabidório”, bem como sentiu a falta de expressões populares e provérbios como “Quem tem boca vai a Roma”, “Rei morto, rei posto”, “Nem tudo que reluz é ouro”, “Muito riso, pouco siso”, “Seguro morreu de velho”, “Não se pescam trutas a bragas enxutas” e “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, “Onde Judas perdeu as botas”, “A ocasião faz o ladrão”, “Mijar fora do penico”, “De pequenino se torce o pepino”, “Aqui é que a porca torce o rabo”, “Tarde piaste”, “Toma lá, dá cá”, “São mais as vozes que as nozes”.
Carlos Lopes fez questão de apontar até mesmo a ausência de expressões e regionalismos pouco conhecidos nacionalmente – mas às vezes usadas por certos escritores brasileiros –, como “lascadiço”, “pitocar” (usar o pênis), “encostar no barranco” (praticar ato sexual, sobretudo com animais) e “rebolosa” (que em Portugal é nome de freguesia, mas que segundo Jorge Amado é “adjetivo vil para aquela navegação de ancas e seios”).
Entre os erros, consta a grafia “jusuante” em vez de “jusante”; a classificação de “ancoragem” como adjetivo (em vez de substantivo); “oxosse” em vez de “oxóssi” (hoje em dia dicionaristas recomendam a grafia “oxoce”, mas duvido que seja mais usual); e “carinho” como sinônimo de si mesmo (“carinho s.m. afago, meiguice, carinho”).
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Como profundo conhecedor de filosofia, também apontou imprecisões conceituais, como caracterizar o averroísmo (doutrina de Averróis, filósofo árabe) como doutrina de “tendência materialista”.
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Segundo a professora Maria Augusta Mattos (Unicamp), nos anos 80 o tradutor manteve correspondência com a assistente do lexicógrafo, professora Margarida dos Anjos. O fato é que, dois anos depois dessa autopublicação, na segunda edição de seu léxico (1986), o dicionarista corrigiu erros indicados por Carlos Lopes e inseriu várias palavras, expressões e sentidos apontados como ausentes pelo tradutor. Outras palavras continuam de fora até hoje, na edição mais atual.









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