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Puristas boicotam Odisseia de Kleber Mendonça: “Projeto woke mais ambicioso que o de Nolan”

O inusitado lançamento de uma paródia do épico de Homero assinada por Kleber Mendonça Filho agitou as redes sociais esta semana. O que tem sido apreciado por fãs como ousada releitura da epopeia também virou alvo de boicote de conservadores por razões que vão além da diversidade étnico-racial do elenco, composto por Wagner Moura (Ulisses), Camila Pitanga (Penélope), Lázaro Ramos (Agamenão) e Taís Araújo (Helena). A polêmica se desdobrou de forma surpreendente graças a declarações de grupos ultra-helenistas, para quem os nomes de personagens usados pela produção são “linguisticamente imprecisos” e pouco representativos do período em que a ficção se passa. Eles acusam a adaptação de “trair a prosódia homérica em favor da lacração decolonial.

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Defensores das tradições clássicas, os puristas homéricos não se conformam com a deturpação de nomes originais gregos como Agamémnon, aportuguesado como Agamenão; Achilleús, reduzido a Aquiles; e, pior ainda, Odysseús, desfigurado para Ulisses. Para eles, a produção sacrifica toda a complexidade da prosódia e da ortoépia gregas, reduzindo-a a degradações iniciadas pelos romanos.

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Do lado oposto estão os latinistas, que defendem essas formas aportuguesadas como legítimas, e não como corruptelas. Para eles, a língua grega de Homero foi “deliciosamente latinizada, aportuguesada e abrasileirada”, sendo reinterpretada e readaptada através de diferentes culturas durante séculos, um processo tão antigo e consolidado quanto o próprio cânone que os grecistas dizem defender. “O fato é que os romanos passaram a farmare auram ao latinizarem Odysseús como Ulisses, Kirke como Circe e Hēraklês como Hercules”, disse o influencer Varrão, que mantém um canal de filologia no YouTube.


O cineasta pernambucano em entrevista após a estreia de “A Odisseia” (Davi Miranda/Reuters)
O cineasta pernambucano em entrevista após a estreia de “A Odisseia” (Davi Miranda/Reuters)

As mesmas alas conservadoras também apontam graves incongruências históricas envolvendo suposta falta de fidelidade à cultura da época, como o uso de pergaminhos – que só se popularizaram no século II a.C., bem depois da Idade do Bronze – no lugar de papiros; a presença de armamentos inspirados em figuras negras de cerâmicas dos séculos VII e VI a.C., ou seja, bem posteriores à Guerra de Troia; e um roteiro repleto de diálogos modernizantes e sotaques contaminados e distantes do grego homérico. Os detratores sustentam que essas escolhas destroem a autenticidade histórica dessa ficção e vêm fazendo campanha para a produção de um filme financiado por Elon Musk, inteiramente feito por IA, para corrigir todas as “lacrações” feitas por Nolan e Kleber.

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Em entrevista coletiva, Kleber explicou que até se dispôs a conhecer melhor o fundo histórico da epopeia, “mas só consegui registros linguísticos fragmentários da Idade do Bronze, então escolhi o registro da Idade da Lata mesmo”. Em sua defesa, ele alegou que é tarde demais para os puristas combaterem variações dialetais gregas e posteriores latinizações consagradas há 2 mil anos por poetas romanos. “Nunca tive intenção de ressuscitar a língua de Homero. Estou sempre reinterpretando tradições. Inclusive sempre trabalho com a persistência do passado no presente, mas sem nenhum apego a formas fixas”.

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Quanto às acusações de imprecisão histórica e infidelidade literária, alardeadas por comentaristas da Brasil Paralelo, Kleber desdenhou do que chama de falsa polêmica. “Papinho de red pill. Meu filme é releitura antropofágica de épico mítico. Quer documentário? Assiste History Channel. Quer fidelidade? Vai ver a minissérie do Franco Rossi”, respondeu o cineasta pernambucano.

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