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“Quem tem boca vai a Roma”: um provérbio vítima da ambiguidade homofônica

há 13 minutos
2 min de leitura
Cena de Cleópatra (1963), de Joseph L. Mankiewicz e Rouben Mamoulian
Cena de Cleópatra (1963), de Joseph L. Mankiewicz e Rouben Mamoulian

Anacronismos à parte, é possível notar que, se ambos falassem português, ao ouvir essa fala de César, Cleópatra não distinguiria “vai a” de “vaia”, salvo se ele marcasse artificialmente a fronteira entre as duas palavras, pronunciando “vai” e fazendo pausa antes do “a”: “VAI | A ROMA”. Eis uma distinção da escrita que pode se perder na oralidade. Essa ambiguidade homofônica ajuda a explicar o problema que esse ditado clássico enfrentaria séculos depois, com o surgimento do verbo “vaiar”. Primeiramente, voltemos no tempo pra descobrir como tudo começou.


“Quem tem boca vai a Roma” pertence a uma antiga família de provérbios ibéricos. Nos Refranys rimats, coleção catalã do século XV, já aparece I qui llengua ha / a Roma va i ve ( = “E quem língua tem, a Roma vai e vem”). Em castelhano, a mesma ideia se encontra nos Refranes que Dizen las Viejas tras el Fuego, coleção atribuída ao Marquês de Santillana: Quien lengua ha, a Roma va.


Não é possível provar que o português tenha tomado o provérbio diretamente do catalão ou do castelhano. De qualquer forma, esses registros mostram que a ideia já circulava na Península Ibérica antes de aparecer documentada em português: quem tem língua – isto é, quem sabe perguntar e pedir informações – consegue chegar a Roma. O próprio Refranero Multilingüe do Instituto Cervantes registra variantes transparentes como “Quem tem língua vai a Roma” e “Quem língua tem a Roma vai e de Roma vem”.


Em português, o mais antigo registro conhecido até agora é de 1651, nos Adagios Portuguezes Reduzidos a Lugares Communs, de António Delicado, primeira obra portuguesa dedicada à coleção de provérbios. Ali encontramos “Quem tem bocca vay a Roma”. Mas tudo indica que Delicado apenas registrou em português um provérbio já conhecido no mundo ibérico.


O registro mais antigo conhecido que temos do verbo “vaiar” – o substantivo “vaia” veio do castelhano vaya ( = zombaria), e já circulava em português desde o século XVI – está no Vocabulário Pernambucano (1937), de F. A. Pereira da Costa. Já o registro mais antigo que encontramos até agora da variante ressignificada está em Os Saltitantes Seres da Lua (1997), de Nelson de Oliveira: “Ah, o amor! Quem tem boca vaia Roma, já diziam!”. Isso não significa que Oliveira tenha criado a variante; o “já diziam” pode sugerir circulação anterior, embora, sozinho, não seja suficiente para prová-la.


Podemos nunca saber onde nem quando surgiu a variante, mas há uma explicação linguística bastante plausível sobre como ela pode ter surgido: a chamada “ambiguidade de segmentação”, apresentada por Rodolfo Ilari em Introdução à Semântica (2001). Na escrita, os espaços deixam clara a divisão vai + a. Já na fala, temos uma cadeia sonora contínua, e essa fronteira pode não ser perceptível. Daí a sequência “vai a” pode ser ouvida e reanalisada como uma única palavra: “vaia”. Temos assim duas segmentações possíveis para uma mesma cadeia sonora.

Se mudamos a segmentação, mudamos também o sentido. E, como provérbios circulam principalmente por meio da oralidade, é bem plausível que essa homofonia tenha favorecido a reinterpretação e a criação de uma variante com significado próprio.


Bom, seja lá o que tenha acontecido, tudo indica que os falantes continuarão ora indo a Roma, ora vaiando Roma.

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