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Há quem prefira ter câimbras a ter cãibras, mas gramáticos dizem não haver mal nenhum nisso

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Faz alguma diferença ter câimbras em vez de cãibras? Não. Nem fisiologicamente, nem gramaticalmente. Alguns gramáticos dizem que é melhor ter cãibras, mas no fundo isso fica a gosto de quem sofre do mal.


Bechara diz que câimbra é um erro que se difundiu na língua, especialmente entre os brasileiros. No entanto, tudo indica que essa grafia surgiu ao mesmo tempo que sua variante mais prestigiada, cãibra, tendo o uso variado entre ambas desde então. Vejamos.


A palavra chegou ao português no século XV como ‘cambra’ (por meio do francês crampe), forma que acabou não vingando. Já os registros mais antigos conhecidos dessas duas variantes empregadas hoje em dia podem ser encontrados em dicionários bilíngues francês/português da primeira metade do século XIX. Cãibra já podia ser vista num deles em 1811; pouco depois, encontram-se ambas as grafias, cãibra e câimbra, no dicionário de Solano Constâncio (1820).


Curiosamente, ele as registra assim, em correspondência com a palavra francesa:


“crampe, s.f. cãibra” (volume 1, francês > português, p. 112)
“câimbra, s.f. crampe” (volume 2, português > francês, p. 84)

Nessa mesmíssima época, também surgiu a variante quèmbra, que não sobreviveu ao século XIX.


Bechara cita literatos (José J. Veiga, Vinícius de Moraes) para abonar cãibra; mas escritores como Visconde de Taunay (fundador da ABL) e Martins Pena (patrono) grafavam câimbra, que foi amplamente dicionarizada no século XIX junto com cãibra, Vale observar que o uso no plural (ter cãibras, sentir câimbras) também já era comum desde aquele tempo.


Não é à toa que, em suas cinco edições impressas (de 1981 a 2009), o Volp registra as duas variantes. MAS... na sexta edição, lançada de forma exclusivamente on-line em 2021, “câimbra” foi – pasme! – removida pelos acadêmicos da ABL. Vai entender por quê...


Mas que se danem os imortais: com exceção do recém-falecido gramático, todos os seus colegas (do mais conservador ao mais moderno), embora de modo geral reconheçam ser cãibra mais usual, dão câimbra como corretíssima. Portanto, Bechara, cê tá sozinho nessa. Perdeu, mané.


Nada contra quem sofre de cãibras, mas eu prefiro câimbras.


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