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Correção de “melhor” por “mais bem” antes de particípio: uma regra arbitrária e ultrapassada

Entre os nossos gramáticos mais antigos, encontramos poucas lições sobre o uso do advérbio “melhor” como comparativo de superioridade diante de particípio. O brasileiro Antônio de Moraes Silva dava esse emprego como legítimo (Grammatica Portugueza, 1824); já o purista português Cândido de Figueiredo o condenava, ainda que reconhecesse a existência desse emprego nos clássicos (Falar e Escrevêr, 1906). No ano seguinte, o brasileiro Eduardo Carlos Pereira cita literatos portugueses (Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Feliciano de Castilho) como autorizados exemplos de “melhor” com particípio (Gramática Expositiva, 1907).


Mais adiante, entre os gramáticos contemporâneos de maior prestígio, é Napoleão quem vai herdar essa condenação purista de Figueiredo: para ele, “raras são as distrações de ‘melhor’ em lugar de ‘mais bem’ em bons escritores” (Questões Vernáculas, 1981). Na realidade, não são raras: ao ensinar que, “antes de particípio, tanto é correto usar ‘melhor’ como ‘mais bem’”, Cegalla dá inúmeros exemplos, na tradição literária, do emprego condenado por Napoleão, com trechos da lavra de Feliciano de Castilho, Machado de Assis, José de Alencar, Aquilino Ribeiro, Vivaldo Coaraci, Oliveira Viana, Herberto Sales, Nélida Piñon, Cassiano Ricardo etc. (Novíssima Gramática, 2008).



Bechara entende esse uso de “melhor” como “construção mais moderna” (o que não procede, uma vez que os padres Antônio Vieira e Manuel Bernardes já escreviam assim no século XVII, seguidos de outros clássicos portugueses nos séculos seguintes), que “atualmente é tão usual quanto a primeira [mais bem]” e que, embora contestadas por puristas, “hoje a opinião geral é aceitar ambas as construções” (Moderna Gramática, 2024). Rocha Lima ensina que, além do comparativo ‘mais bem’ e ‘mais mal’ antes de adjetivos-particípios, “diz-se também: ‘Obra melhor talhada’; ‘Coisas mal ouvidas e pior entendidas’ (Gramática Normativa, 2011). Já Luft (que não adota a tradição literária como critério de correção) simplesmente ensina que, “com os particípios, geralmente as duas possibilidades (mais bem/mal ou melhor/pior): mais bem conservado ou melhor conservado, mais mal executado ou pior executado, porque duas análises ou interpretações: 1) mais [bem/mal conservado]; ou 2) [mais bem/ mais mal] conservado> melhor/pior conservado” (ABC da Língua Culta, 2010).


Apesar de todas essas lições atuais legitimando o uso de “melhor” com particípio como correto, bancas examinadoras, manuais de redação, professores e revisores parecem só ter olhos para a equivocada regra purista, que só admite o uso de “mais bem”. O fato é que, fora do âmbito dos concursos e dos critérios editoriais e jornalísticos, não devemos ficar reféns desse conservadorismo besta. O melhor critério, a nosso ver, é este: se há tantos gramáticos contemporâneos ensinando que uma forma é tão correta quanto a outra, por que diabos continuar seguindo uma regra arbitrária que só admite uma das formas, contrariando um uso consolidado há séculos em língua culta?

2 comentários


sergiobg
02 de abr.

Na raiz do debate está um galicismo sintático, como em nada a ver...

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Sávio Christi
Sávio Christi
02 de abr.

Aprendi que "melhor" é superlativo de "bom" e que "mais bem" é superlativo de "bem".


Mas por que "mais bem assistido" é a única forma gramaticalmente correta e esteticamente bonita se falamos "assistido melhor" então?


Pois seu texto é excelente e genial... sem dúvidas! Meus parabéns, viu?


Forte abraço... e cuide-se! Está ligado nisso?

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